Evento discuti estratégias para acelerar projetos acadêmicos inovadores

Disseminar a cultura da inovação e apontar caminhos para facilitar a transformação da pesquisa básica em medicamentos e em produtos inovadores foi o objetivo do 1st International Symposium on Drug Discovery in Academia

12/12/2016 12h07 - Por: Agência FAPESP

Evento discuti estratégias para acelerar projetos acadêmicos inovadores
Foto: Léo Ramos/Revista Pesquisa FAPESP

Karina Toledo | Agência FAPESP – Com o intuito de aproximar pesquisadores acadêmicos das áreas de biomedicina e biotecnologia com representantes da indústria farmacêutica, bem como discutir estratégias para favorecer a transformação da pesquisa básica em medicamentos e outros produtos inovadores, foi realizado no dia 17 de novembro, no Instituto Butantan, o 1st International Symposium on Drug Discovery in Academia (ISDDA 2016).

O evento foi organizado pelo Centro de Excelência para Descoberta de Alvos Moleculares (CENTD) – financiado pela FAPESP, GlaxoSmithKline (GSK) e pelo Instituto Butantan – e pelo Programa SPARK-Supernova, grupo criado por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) e da Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo (USP), com participação da empresa Dow Química, para ajudar a “acelerar” projetos acadêmicos inovadores.

"O SPARK-Supernova foi criado em 2014 e, desde então, temos promovido diversos eventos para disseminar a cultura da inovação no meio acadêmico. Mais recentemente, surgiu essa parceria com o CENTD, do Butantan, que tem uma missão parecida com a nossa: prospectar e acelerar novos projetos, de modo a transformá-los em produtos”, contou Julio Cesar Batista Ferreira, professor do ICB-USP.

“A ideia do encontro era unir academia e indústria para discutir o desenvolvimento de novos medicamentos e apresentar alguns exemplos de sucesso para que possamos absorver essas informações e tentar aplicar dentro de nossas condições”, comentou Vanessa Zambelli, pesquisadora do Butantan e membro do comitê de Difusão Científica do CENTD.

Um dos cases de sucesso foi apresentado por Che-Hong Chen, professor da Stanford University School of Medicine, nos Estados Unidos. Há alguns anos ele descobriu a molécula Alda-1, que demonstrou em ensaios pré-clínicos potencial para tratar diversas condições de saúde associadas ao acúmulo no organismo de uma substância tóxica chamada aldeído – entre elas doença arterial periférica, insuficiência cardíaca e intoxicação por álcool (particularmente em pessoas que apresentam deficiência na produção de uma enzima chamada aldeído desidrogenase-2, que auxilia no metabolismo de aldeídos).

Chen criou a startup Aldea Pharmaceuticals com apoio do financiamento que obteve da Stanford University por meio do programa SPARK – no qual o SPARK-Supernova foi inspirado e do qual hoje é parceiro –, cujo objetivo é facilitar a transformação de uma descoberta básica em um tratamento (bench to bedside).

“O programa coloca os pesquisadores de Stanford para trabalhar em parceria com médicos da área e especialistas da indústria farmacêutica e de biotecnologia, que atuam como mentores. Há uma forte pressão por resultados e um cronograma de metas a serem cumpridas ao longo de dois anos de financiamento”, contou Chen.

Ferreira, que cursou parte do doutorado e o pós-doutorado em Stanford, atualmente colabora com a equipe de Chen e a empresa Aldea Pharmaceuticals nos testes pré-clínicos com a Alda-1 (Leia mais nas reportagens Molécula reduz degeneração cardíaca após infarto, Molécula mostra potencial contra insuficiência cardíaca, Coração ganha novo aliado contra infartos).

Os primeiros testes clínicos com a molécula para tratamento de intoxicação por álcool já foram concluídos e os resultados devem ser divulgados em breve. “O tratamento, no caso de portadores de deficiência de aldeído desidrogenase-2, é capaz de reduzir drasticamente o tempo de internação, o que representa uma grande economia de recursos para os hospitais”, contou Ferreira.

No ICB-USP, atualmente, sete projetos estão sendo acelerados com apoio do SPARK-Supernova. Cinco deles já se tornaram startups e contam com financiamento do Programa FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE): “Aperfeiçoamento e inovação aplicados ao teste de triagem neonatal para imunodeficiências congênitas”; “Caracterização de cardiomiócitos derivados de células-tronco de pluripotência induzida e padronização de ensaios celulares”; “Viabilização comercial de queratinócitos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas e desenvolvimento de equivalente de pele”; “Nova abordagem imunoterapêutica contra tumores induzidos por HPV”; e “Diagnóstico sorológico rápido e de baixo custo para Zika vírus, utilizando a plataforma de ELISA - IgG/IgM”.

“Oferecemos treinamento e orientação para docentes e alunos interessados em transformar suas ideias em produtos. Para isso, o SPARK-Supernova conta com um corpo de consultores voluntários acadêmicos e não acadêmicos capaz de acelerar o processo de desenvolvimento do projeto, sempre pensando no produto-alvo. Temos parceiros na Faculdade de Ciências Farmacêuticas [USP], na Faculdade de Medicina [USP], na Faculdade de Medicina Veterinária [USP], no Butantan, no IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas], no Cietec e no Ipen [Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares], além dos colaboradores do setor privado”, contou Ferreira.

Recentemente, o grupo ganhou uma nova aliada: foi criada a rede Global SPARK, que integra os 13 programas SPARK distribuídos em cinco continentes. “A rede facilitará a troca de informações e aumentará a possibilidade de interações entre projetos acelerados e assessores internacionais. Seguimos o modelo de reuniões periódicas para acompanhar e discutir os projetos”, disse.

A princípio, segundo o pesquisador, o foco do SPARK-Supernova é a descoberta e o desenvolvimento de fármacos que atendam uma necessidade clínica. “Mas a ideia é expandir nosso campo de atuação assim que conseguirmos aumentar nosso grupo de consultores”, disse Ferreira.

Benefício mútuo

Um dos representantes da indústria farmacêutica no evento foi Kevin Madauss, da GlaxoSmithKline (GSK). Ele apresentou o programa de financiamento criado pela empresa em 2011 – o Trust in Science (Confiança na Ciência) –, cujo objetivo é criar parcerias de longo prazo com centros de pesquisa de ponta em países da América Latina e África, entre outros.

“Por meio desse programa, no Brasil, firmamos parceria com a FAPESP e o CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. No caso da FAPESP, por meio do CENTD, o foco é avançar nas primeiras etapas do processo de descoberta de novos fármacos. Na fase de validação de alvos terapêuticos”, contou.

Os números apresentados por Madauss ilustram por que é interessante para a indústria a parceria com centros acadêmicos de pesquisa. Em média, segundo ele, a indústria leva cerca de 12 anos para desenvolver um novo fármaco e investe cerca de US$1,3 bilhão ao longo do processo.

“A maior parte desse custo se concentra nas etapas finais, que envolve os ensaios clínicos. As etapas de descoberta de novos alvos e novas moléculas, que vão do primeiro ao quarto ano, têm um custo muito menor. Se conseguirmos, com a ajuda de pesquisadores acadêmicos, eliminar candidatos sem futuro logo no começo e reduzir as falhas nas etapas mais avançadas, isso representará uma economia enorme de tempo e dinheiro”, disse.

Fernando Perez, diretor-presidente da Recepta Biopharma, também afirmou que a parceria com as universidades foi essencial para o modelo de negócio de sua empresa.

“No Brasil, os profissionais mais qualificados estão nas universidades e não vão deixar um emprego estável para assumir riscos na indústria. Optamos por colocar pessoas pagas pela Recepta nos laboratórios das universidades, para ter certeza de que todos os processos seriam feitos e registrados de forma adequada”, contou.

Para Perez, no Brasil, há necessidade de criar uma linguagem comum entre academia e indústria e de promover uma mudança cultural no meio acadêmico, para que os cientistas se tornem mais abertos à parceria com empresas.

Também estavam presentes no evento Camille R. Silva (Pharmagenix), Eyleen O’Rourke (University of Virginia, Estados Unidos), Eric Gross (Stanford University School of Medicine), Artur T. Cordeiro (Laboratório Nacional de Biociências), Carsten Wrenger (ICB-USP) e Jackson C. Bittencourt (ICB-USP).

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